terça-feira, 24 de agosto de 2010

"E ir ser selvagem para a morte, entre árvores e esquecimentos"

O verso de um poema de Àlvaro de Campos me fez pensar muito sobre as vozes que se levantam em defesa de um patrimônio (mundial, nacional, regional -?!) que têm, de fato, ecoado entre árvores e esquecimentos: A Amazônia.

Debate-se, fala-se, buscam-se idéias, propõem-se isso e aquilo... Mas, afinal, por que é tão difícil construir uma teoria crítica sobre a Amazônia?

A contradição do espaço amazônico pode ser facilmente percebida dentro de diversos âmbitos. Do ponto de vista sócio-econômico, o patrimônio natural amazônico está na origem de uma série de conflitos pela posse de seu uso, enquanto que a Amazônia dispõe de recursos naturais e, porque estar ocupada, em sua totalidade, torna-se uma fronteira de expansão para as atividades produtivas que dependem de recursos naturais (FLEICSHFRESSER, 2006). A ambigüidade amazônica defini-se pela mobilização de recursos financeiros internacionais para sua conservação e, simultaneamente, é ocupada aceleradamente após o esgotamento de recursos naturais e o fechamento da fronteira agrícola nos demais estados brasileiros (FLEICSHFRESSER, 2006). Dentro desse cenário, a definição de políticas públicas consistente é uma tarefa complicada, mais complexa ainda é a formulação de uma teoria crítica consistente para a região.

Teoria crítica, na concepção de Horkheimer (apud Santos, 1999) é uma teoria fundamentada epistemologicamente na necessidade de superar o dualismo entre o cientista individual, promotor autônomo do conhecimento, e a totalidade da atividade social que o rodeia. Dentro dessa análise, cabe a ressalva de que, durante muito tempo, o conhecimento popular, de senso comum das comunidades tradicionais da Amazônia foi relegado ao desprezo da comunidade científica.

Segundo Santos (1999), a teoria crítica é aquela que não reduz a realidade, que é considera pela teoria crítica como um campo de possibilidades,ao que existe. Assim, a tarefa dos teóricos, ao pensar no contexto amazônico, é definir e avaliar a natureza e o âmbito das alternativas ao que está empiricamente dado. Para o autor, “a análise crítica do que existe assenta no pressuposto de que a existência não esgota as possibilidades da existência, e que, portanto, há alternativas sucetíveis de superar o que criticável no que existe” (SANTOS, 1999, p. 197). Na Amazônia, o paradigma de crescimento, real e que pode ser observado nos dados de Fleischfresser (2006) que demonstram o aumento da participação da região na composição do PIB nacional de 3,5% em 1970 para 7% em 2002. Essa realidade é criticável a partir do momento em que se constata que, a partir desse período, elevam-se também as desigualdades regionais, quando o peso dos estados do Pará, Amazona, Mato Grosso e Maranhão se elevam em relação aos demais estados. É, portanto, à luz do desconforto diante daquilo que existe suscita-se o impulso a teorizações críticas (SANTOS, 1999)

A dificuldade de superação, por sua vez, desenha-se pela dificuldade da construção de uma teoria crítica. Segundo Santos (1999, p. 204) “as promessas da modernidade, por não terem sido compridas, transformam-se em problemas para os quais parece não haver solução”. Na realidade amazônica, coexistem dimensões de um mundo social pré-moderno e moderno, além de traços que se configuram como pós-modernos. Na era moderna, o espaço é arrancado do tempo, de fora em que as pessoas, apesar de distantes umas das outras, não deixam de realizar trocas simbólicas e serem influenciados entre si.

Outro fator importante a ser considerado é o qual Morin (2002) se refere ao afirmar que hodiernamente os saberes são fragmentados, separados e compartimentados entre disciplinas (o que impossibilita apreender e analisar o complexo) enquanto que as realidades e problemas são cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, globais e planetários. Com a fragmentação dos saberes chega-se a uma especialização que se fecha em sim mesma, impedindo a integração de pensamentos para a resolução de problemáticas globais. É importante, contudo, que se perceba, segundo o autor, que problemas particulares só podem ser analisados em um contexto presente no desenvolvimento próprio do nosso século. Dessa maneira, o desafio da globalidade converte-se em um desafio da complexidade, dado quando os componentes que constituem um todo são inseparáveis e existe um tecido interdependente e interativo entre as partes e o topo e o todo e as partes. Assim, a complexidade aparece quando enfrentamos problemas modernos para os quais mão há soluções modernas (SANTOS, 1999).

Ao considerar os aspectos acima, afirma-se que o objetivo central de uma teoria crítica para Amazônia é desenvolver muito mais do que teorias, mas horizontes analíticos e conceituais que credibilizem uma atitude crítica, sobretudo daqueles que sentem que as razões da indignação e inconformismo não estão apoiados pela indignação e inconformismo da razão (SANTOS, 1999). Porque uma teoria crítica visa transformar-se num senso comum emancipatório. Por ser auto-reflexiva, a teoria crítica sabe que não é por meio da teria que a teoria se transforma em senso comum. A teoria é, dentro desse contexto, a consciência cartográfica do caminho que vai sendo percorrido pelas lutas políticas, sociais e culturais que ela influencia tanto quanto é influenciada.

Além disso, é importante se ter em mente, conforme ressalta Morin (2002) o conhecimento só é conhecimento enquanto organização, relacionado com as informações (parcelas dispersas do saber) e inserido no contexto destas.
É assim, portanto, que se desenha a necessidade de reunir informações, até então fragmentadas que, separados, não conseguem conjugar-se para alimentar um pensamento capaz d considerar a situação humana e de enfrentar os grandes desafios da época a fim de construir uma teoria crítica pela superação, consistente e que aponte para a reforma do pensamento sobre a Amazônia.



FLEICSHFRESSER, Vanessa. Amazônia: Estado e sociedade. Campinas, SP: Armazém do Ipê (Autores associados). 2006.

SANTOS, Boaventura de Souza. Por que é tão difícil construir uma teoria crítica? IN: Revista Crítica de Ciências Sociais. N 54. Junho, 1999.


 "Olhando os meus olhos de verde floresta/sentindo na pele o que disse o poeta [...] Eu olho o futuro e pergunto pra insônia: será que o Brasil não conhece a Amazônia?"

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Roteiro Turístico: Por uma compreensão epistemológia

Um pouco atrasada (como sempre) tenho o imenso prazer de comunicar que, finalmente, entreguei a dissertação!

Agora entendo o que povo quer dizer com "tirar um peso". Entreguei na terça-feira passada, 17 de agosto. Mas como estava "tri"-cansada tive que dormir antes de qualquer coisa...

Havia prometido aqui postar a síntese dos capítulos, mas vou fazer melhor (?!) trago a introdução:


O interesse pelo tema roteiro turístico surgiu para a pesquisadora ainda na Graduação em Turismo, realizada no Instituto de Estudos Superiores da Amazônia (Iesam), associado a um projeto de viabilidade, então desenvolvido, para implantação de um empreendimento hoteleiro no município de São João de Pirabas, no Pará. O estudo apontou, entre outros, que o Município não careceria, necessariamente, da ampliação do número de leitos e unidades habitacionais, mas, sim, da formatação de um produto capaz de aumentar o tempo de permanência do turista no local, o que, na época, foi associado à oferta de Roteiros Turísticos na região.

Já como aluna do Mestrado em Turismo da Universidade de Caxias do Sul, feitas as primeiras revisões da literatura sobre o tema de estudo, percebeu-se haver uma lacuna no que concerne às teorizações referentes ao assunto. Tanto nas práticas de mercado como na reflexão acadêmica, o Roteiro Turístico é apresentado como mero indicador, às vezes descritivo, de locais a serem visitados pelos turistas/visitantes em uma determinada localidade ou região, indicativos esses distribuídos num tempo e num espaço.

O desenvolvimento da presente pesquisa somou, então, uma inquietação há muito presente, no que se refere às práticas contemporâneas de Turismo, sob a lógica da globalização e da pós-modernidade, acrescida ao que pode ser colocado como um reducionismo nas concepções teórico-conceituais para roteiro turístico presentes na literatura. Buscou-se, nesses termos, avançar na sua construção teórica a fim de transcender as práticas de mercado e, por que não?, a teorização em voga, que herda do mercado a postura cartesiana e pragmática.

Com vistas a esse objetivo tentou-se considerar os novos comportamentos sociais no que se refere à viagem e ao uso das (geo)tecnologias, tendência em uma sociedade informacional. Assim, o estudo iniciou-se com pesquisa exploratória de teor bibliográfico sobre o tema. Os autores que se debruçam à compreensão acadêmica dos Roteiros Turísticos são fundamentalmente Bahl (2004a; 2004b) e Tavares (2002). Publicações técnicas, no entanto, concernentes à elaboração/formação de roteiros são mais comuns; destacam-se nesse contexto os manuais utilizados por instituições como o Sebrae, o Senac e o Creato – Oficina de Roteiros.

A pesquisa exploratória indicou que tanto as teorizações, quanto as práticas de mercado e as políticas públicas evidenciam um saber-fazer inerente à elaboração de roteiros, que priorizaria tempo e espaço e, perifericamente, a tematização. Essa etapa da pesquisa gerou dados que levaram à reflexão sobre seu prosseguimento, inclusive em termos metodológicos. Inicialmente pensou-se em analisar o tema sob uma ótica funcionalista para compreender de que forma o “Roteiro Turístico” seria entendido pelas agências de viagens pelos órgãos estatuais de Turismo (Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Pará)[1], conforme ilustra a figura a seguir:

Figura 01: Estruturação da pesquisa segundo o método (momento preliminar – pesquisa exploratória)

Fonte: Cisne, 2010

Questionando-se sobre os avanços que a pesquisa traria nesse sentido, voltou-se à análise das informações levantadas durante a pesquisa exploratória e se percebeu a possibilidade de tratar Tempo, Espaço e Tematização como categorias de análise[2] e, nesse sentido, o encaminhamento dialético seria adequado para tratar a questão. A Dialética surgiu, nesse momento, como suporte ao diálogo necessário entre o estado da arte atual, portanto a tese, e os questionamentos e proposições de novas categorias (Sujeito e Tecnologia), para a composição da antítese. Entretanto, tais, se mostrariam insuficientes para encaminhar a síntese; o impasse exigiu o questionamento do caminho percorrido, principalmente, em termos metodológicos, para o avanço da investigação. Como conseqüência, buscou-se na Complexidade, conforme proposta por Edgar Morin, o suporte epistemo-filosófico, à pesquisa. Esse percurso reflexivo, bem como a metodologia com seus procedimentos metodológicos serão apresentados e justificados com mais detalhes no primeiro capítulo.

O segundo capítulo apresenta a perspectiva histórica do Turismo, delineando as marcas de roteirização. Essa construção foi norteada pelo paradigma do Pós-Turismo, apresentado por Molina (2003), por se mostrar, até o presente momento, como a periodização que melhor agrega as demais propostas trazidas por pesquisadores que narram a história do Turismo. Nesse capítulo também se aponta para as categorias aqui elencadas para análise, tanto as tradicionais – tempo, espaço e tematização – quanto às novas proposições – Sujeito e Tecnologia – em seu entendimento/tratamento nas narrativas históricas do fenômeno consagradas pelos especialistas da área. Dá-se destaque nesse capítulo, às categorias Tecnologia, por ser aquela que norteia a periodização de Molina, e Tematização, compreendendo-a como um recorte do imaginário, por ter sido tratada perifericamente nas teorizações sobre Roteiro Turístico.

Pensando a Tecnologia em seu sentido stricto, pensa-se que, frente às possibilidades de acesso a informações, um turista ao deixar sua cidade para visitar outro local, pode, se o desejar, deter uma gama de informações que lhe permitam, entre outros, traçar seu itinerário em termos de distribuição espaço-temporal. Entretanto, falar em Turismo e Tecnologia não significa reduzi-la aos processos de divulgação e comercialização, pois se pode considerar, por exemplo, todo um novo espaço à subjetividade dos viajantes, em termos de gostos, sentimentos e interesses, que a roteirização, na sua forma tradicional e cartesiana, não permitia considerar, sequer respeitar. Nesse processo de roteirização tradicionalmente vigente, a presença da subjetividade referia-se apenas a do agente formatador, que selecionava os atrativos, a hospedagem e possibilidades de entretenimento que lhe parecessem mais adequados, priorizando, em um primeiro momento, não o Turista, mas o prestador de serviço.

Tendo em vista esses aspectos, chegou-se à categoria Sujeito. A análise do Sujeito na construção epistemológica do Turismo passou por momentos distintos e por interpretações variadas conforme o aporte científico dado. Inicialmente, os conceitos de Turismo remetiam apenas às dimensões espaciais e temporais: “visitante temporário, proveniente de um país estrangeiro, que permanece no país mais de 24 horas e menos de três meses, por qualquer razão, exceção feita de trabalho” (DE LA TORRE, 1992, p. 19). Cabe, portanto, ressaltar que, a partir do momento que se assume o Pós-Turismo como o paradigma no qual se situa este trabalho, essas premissas básicas e fossilizadas do entendimento do Turismo e, conseqüentemente, de Turista limitado ao deslocamento de um lugar para outro, impondo um recorte temporal e geográfico, são negadas.

Além disso, a postura pragmática ainda vigente defronta-se, no momento contemporâneo, com um novo quadro sócio-cultural que apresenta novos comportamentos de lazer e de viagem, e com a presença cada vez maior da tecnologia mesmo nas práticas cotidianas. Os novos comportamentos se marcam, em especial, por demanda no consumo do lazer e viagens por diferentes classes sociais e pela rapidez no acesso a informações no chamado tempo real, possibilitado pela evolução das tecnologias de informação, com novos softwares e equipamentos. Além do crescente desenvolvimento de tecnologias, que possibilitam melhores condições nas viagens, pela presença de meios de transportes mais velozes e mais confortáveis, houve também a possibilidade de maior autonomia dos viajantes em termos da escolha de destinos e na aquisição de produtos e serviços, desde a compra de passagens aéreas via Internet à escolha do apartamento no hotel, permitindo questionar sobre a presença e o papel da figura clássica do agente de viagens, nesse novo contexto.

Então, a Tecnologia, cada vez mais presente na formatação dos produtos turísticos, deixa de ser mero instrumento para inserir-se, entre outros, na concepção dos roteiros turísticos. Um exemplo é o geoprocessamento que seria, nesse sentido, uma ferramenta tecnológica a ser utilizada, possibilitadora de um novo método de elaboração de Roteiros Turísticos, que, aliada à imagem gráfica, permitiria ao turista a oportunidade de, em primeiro lugar, convergir as duas categorias de análise existentes, tradicionalmente, na concepção de Roteiro Turístico, por meio do dimensionamento do tempo e do espaço (escala). Além disso, essa ferramenta poderia possibilitar a percepção de uma localidade sob um novo olhar, através do entendimento de sua logística e aspectos de interesse. Contudo, pensar o georreferenciamento associado ao Turismo, para avançar além da simples utilização como ferramenta de trabalho, significa também repensar teoricamente as questões associadas ao roteiro e roteirização, convergindo à Tecnologia como uma categoria de análise[3].

Sob essas perspectivas, no terceiro capítulo reflete-se sobre o entendimento do Sujeito Turístico nos diferentes campos do conhecimento na busca por sua compreensão no campo do Turismo e como ele se inclui no desenvolvimento do Roteiro Turístico Pós-Moderno, considerando também o paradigma tecnológico como interveniente e mediador no processo de mudança de sensibilidades do Sujeito pós-moderno.

Diante desse cenário e dos objetivos a que esta investigação se propõe, após sistematização do conhecimento já existente sobre o tema, buscou-se avaliá-lo sob a perspectiva de sua possível construção teórica, por meio da proposição de novas categorias de análise, extraídas de teóricos das Ciências Sociais que tratem da sociedade e da cultura na contemporâneo, assim como teóricos que analisem o Turismo e o viajar no momento contemporaneidade, analisando a atividade turística sob a ótica não só dos fixos, mas também da lógica dos fluxos. Para tanto, no quarto capítulo buscou-se refletir sobre o fenômeno turístico com abordagem à epistemologia que considere o Sujeito como centro do processo. Apresentam-se, então, para subsidiar o debate, os momentos epistemológicos do Turismo e ressignificação das categorias tradicionais (Tempo, Espaço e Tematização), para, finalmente, propor, a partir de uma inclinação ao pensamento complexo, uma epistemologia do Turismo que incorpore a lógica dos fluxos.

Dessa forma, busca-se, então, a abertura de um novo horizonte temático que rompa com o já está estruturado, desconstruindo idéias e conceitos para compreendê-los de forma mais ampla por meio de um exercício de um pensamento complexo. Reconhece-se, porém, os limites aqui existentes por, principalmente, não se tratar de um pensamento finalizado, mas uma proposta de trazer questionamentos que leve a novas reflexões, característica da complexidade.

Com vistas ao exposto, esta pesquisa buscou refletir, de maneira especial, se as categorias Sujeito e (Geo)Tecnologias agregadas ao conceito de Roteiro Turístico contribuem para redimensioná-lo e equacioná-lo a uma construção epistemológica de Turismo que transcenda os limites mercadológicos e economicistas e, particularmente, incorpore a lógica dos fluxos.

A partir disso, compreendendo que teoria e prática retroalimentam-se, o quinto capítulo aponta práticas contemporâneas daquilo que fora, até então teorizado, enfatizando os relatos de viagem, desde sua forma oral à escrita, em diários de viagem, livros ou blogs. Para essa análise, buscaram-se, de maneira especial, os relatos do jornalista e blogueiro[4] Zeca Camargo[5], em uma aproximação metodológica ao que se tem chamado de netnografia[6]. Entende-se, portanto, que a prática de roteirização estaria dividida em três momentos que, ao mesmo tempo em que se complementam, não são independentes entre si.

O desafio proposto por este trabalho, então, foi o de (re)pensar o Roteiro Turístico e tendo como proposta a superação do já conhecido, compreendendo-o por meio de suas nuances, atribuindo-lhe um significado e não mais o vendo como simples mercadoria ou o limitando à idéia de itinerário. Para tanto, elencou-se cinco categorias de análise para sua melhor compressão. Portanto, esta investigação teve a intenção de aprofundar os estudos no âmbito dos Roteiros Turísticos e apresentá-los pautados sob uma nova perspectiva de análise, formatados com a ajuda das Tecnologias que acompanham o desenvolvimento da história humana e do Turismo, de forma a considerar a subjetividade existente nesse contexto, o sujeito envolvido, dentre outros elementos. Para tanto, precisou-se, antes de tudo, rever as concepções teóricas hoje acerca dos roteiros.

A questão conceitual é uma dificuldade para a maioria dos pesquisadores que se defrontam com a complexidade vocabular inerente a determinados fenômenos do mundo atual (PORTUGUEZ, 2001). Para o autor, os conceitos não precisam ser encarados de forma exageradamente rígida como em tempos passados. Assim, as ciências da sociedade não poderiam impor inércia para o conteúdo de seus conceitos, uma vez que a sociedade e suas instâncias – seus objetos de estudos – se tornam complexos cada dia mais.

Considerando isso, relevância científica desta investigação desenha-se, na crítica às produções existentes no campo do Turismo sobre o Roteiro Turístico e pela presente análise das concepções teóricas referentes ao tema a fim de não mais limitá-los às concepções reducionistas de mercado. E, ao se apropriar das categorias Sujeito e Tecnologia, esta pesquisa mostra-se como um estudo importante no campo do Turismo, principalmente ao considerar a idéia de natureza compósita do Turismo (BENI, 2001), que permite pensar que mesmo não havendo percurso predefinido, o turista percorre um roteiro; por mais caótica a trajetória, o roteiro seria inerente à viagem e ao Turismo.

A relevância social desta investigação refere-se a uma nova possibilidade de, por meio de discussões teóricas, propor uma concepção de Roteiros Turísticos que ofereça ao turista não apenas um mero itinerário descritivo dos locais a visitar, mas uma opção de desvelar a localidade visitada sob uma perspectiva de organização espacial dentro do território, proporcionando a possibilidade de interpretação da localidade, da logística territorial da cidade, além de considerar quando de seu planejamento, o sujeito turista e sua subjetividade, compreendendo o Roteiro Turístico como orientador não só o fluxo de pessoas, pois este também está preso aos fixos, mas antes de tudo, o fluxo de emoções, sentidos, experiências e ressignificações que o Sujeito, outrora Atávico, agora Turístico, em sua complexidade, atribui ao Tempo, Espaço e Movimento, por meio do Estranhamento.Dessa forma, os roteiros serão planejados a partir da premissa social, pensado para os turistas, como ferramenta a possibilitar ao visitante a oportunidade de interagir com a realidade do local por meio de seu[7] entendimento.

A relevância histórica desse estudo pauta-se na identificação da história dos Roteiros Turísticos a partir do resgate histórico do Turismo e seu desenvolvimento no mundo, utilizando-se para tal, a literatura existente sobre o assunto, sem deixar de considerar o processo de evoluções tecnológicas já existentes desde o princípio de seu desenvolvimento (Paradigma do Pós-Turismo).

Com o objetivo de transcender os limites das discussões hoje impostos ao Roteiro Turístico, a análise que segue caminha para um novo pensar, considerando aspectos da contemporaneidade no contexto do desenvolvimento do Turismo.



[1] Os estados foram escolhidos por afinidade territorial: Pará, Estado natal da pesquisadora; Rio Grande do Sul, onde realizou-se o mestrado; Rio de Janeiro, maior destino turístico internacional (EMBRATUR, 2008).

[2] O objetivo de elencar categorias é analisá-las de forma sistemática e dentro dos campos de conhecimento no qual se aplicam, para então avaliá-las dentro do contexto do turismo e, então, no âmbito dos roteiros turísticos (CISNE e GASTAL, 2009).

[3] Os avanços dos estudos possibilitaram a migração do conceito de tecnologia em seu sentido stricto para seu sentido lato, compreendendo-a conforme McLuhan, como uma extensão do corpo humano, por exemplo a roda, como extensão dos pés (ver capítulo 03).

[4] Blogueiro (Português brasileiro) ou bloguista (Português europeu), ou ainda blogger (Inglês), são termos utilizados para designar aquele que escreve em blogs. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Blog)

[5] http://colunas.g1.com.br/zecacamargo

[6] As especificidades dessa abordagem serão apresentadas no capítulo um.

[7] Assume-se aqui a ambigüidade do termo, considerando que, conforme a construção aqui apresentada, o Roteiro Turístico organiza os fixos e os fluxos. A organização deste dá-se pela ressignificação do Tempo e do Espaço que possibilitará que ele (o Sujeito) possa encontrar-se consigo mesmo (ver capítulo 04)


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Perspectiva crítica de valorização ambiental, cultural e turística da Amazônia para o desenvolvimento socioeconômico de base local

Resumo: Em âmbito mundial, a Amazônia ganha destaque, principalmente, por sua rica biodiversidade. A Amazônia não se limita a uma área de cerca de quatro milhões de quilômetros quadrados de floresta, considerada “pulmão do mundo”. No Brasil, constitui uma região que reúne nove estados. As riquezas sau de fauna e de flora ainda não são totalmente conhecidas. Tampouco se reconhece a heterogeneidade cultural e identitária de seus povos tradicionais. Em razão da grande repercussão dos debates ambientalistas, sua dimensão sociocultural perde espaço. Este artigo tem como objetivo mostrar que a Amazônia, além de seu valor como reserva natural, é uma região que abriga povos, cujos valores, culturas e identidades são esquecidos, relativamente a questões como o desmatamento, por exemplo. Apresentam-se relatos de amazônidas do município de São João de Pirabas, município do interior do estado do Pará. Os depoimentos foram coletados no período de 2004 a 2007 por meio de pesquisa de campo no município. Conclui-se que turismo pode contribuir para a valorização das manifestações culturais e para a preservação do meio ambiente. Além de contribuir para a solução dos problemas ambientais, a atividade turística deve ser estratégia de compreensão do homem amazônico, valorizando sua cultura, identidade e o capital social, por meio do fortalecimento da consciência de pertencimento e de propriedade do território amazônico pelo autóctone.

Palavras-chave: Amazônia. São João de Pirabas (PA). Identidade. Cultura. Valor. Turismo

O Sujeito Turístico: discutindo a categoria Turismo a partir da Pós-Modernidade

Resumo: O presente ensaio busca uma reflexão em torno da construção do conceito de SUJEITO TURÍSTICO. Com tal conceito busca-se uma maior compreensão do que tem sido denominado como TURISTA, categoria em geral aplicada àquele que se encontra fora de seu lugar de residência e que, nesta condição, demanda por serviços de transporte, hospedagem e alimentação. Paradigmas contemporâneos, como a presença da tecnologia e a conseqüente desmaterialização do espaço, colocam novas e pertinentes inquietações sobre o deslocamento e o Turismo. Para perseguir a reflexão aqui proposta utiliza-se a teoria da complexidade, conforme Edgar Morin (1999, 2002a e 2002b), e as colocações de Maffesoli (2001) sobre os novos nomadismos.

Palavras-chave: Turismo; Turista; Sujeito Turístico; Complexidade

Resultado de Artigos aprovadados para o Seminário da Anptur (2010)

Eu sei que estou meio (toda?) atrasada com tudo...

Mas justifico: A dissertação parece que nunca acaba! E, como essa "desculpa" já está parecendo clichê, tenho outra: É RamaDan e isso tem ocupado demais meu tempo, seja com fome, com sono ou simplemente com a intolerância do povo ao meu lado que ou tira sarro, ou faz questão de passar com um prato de comida na minha frente...

Sim, estou jejuando! talvez isso me ajude com uma "pendências" pessoais que venho adiando e prometi pensar no "próximo RamaDan", que já começou...

Justificativas pessoais a parte, vamos retornar ao tema da postagem...

A Anptur lançou na última terça, dia 10, a lista dos artigos aprovados para a sétima edição de seu seminário, que acontecerá entre os dias 20 e 21 de Setembro, em São Paulo.

Submeti dois artigos, ambos aprovados cujos resumos serão postados a seguir.

Poderia até ter me justificado pelo atraso quanto a postagem do resumo submetido ao Confinimobilis (postagem anterior), mas o fato é que "encaxou" bem com a postagem que segue, já que um dos artigos que submeti ao Seminário da Anptur é sobre a construção da categoria "Sujeito Turístico".

Seguem então as postagens com o resumo dos artigos:

O Sujeito Turístico: discutindo a categoria Turismo a partir da Pós-Modernidade

Perspectiva crítica de valorização ambiental, cultural e turística da Amazônia para o desenvolvimento socioeconômico de base local