segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Nueva visión sobre los itinerarios turísticos: Una contribución a partir de la complejidad

La creación de itinerarios turísticos, tan importante para la práctica turística, ha sido poco abordada por el ámbito académico; por lo tanto se ha avanzado poco en lo que respecta a la conceptualización del tema. Con el objetivo de repensar los itinerarios turísticos y sus procesos de creación, este artículo propone una revisión bibliográfica sobre el tema, considerando los relatos y guías de viaje como los antecesores de los itinerarios turísticos, los cuales son más modernos. Como apoyo metodológico se recurrió al aporte del Paradigma de la Complejidad de Edgar Morin, que permite considerar la relación entre las teorías y prácticas del turismo; entre ellas la creación de itinerarios, frente a los nuevos comportamientos de los viajeros en el contexto de la posmodernidad.  

PALABRAS CLAVE: turismo, complejidad, itinerarios turísticos


**Artigo publicado na revista Estudios y perspectivas en Turismo. Artigo na íntegra disponível aqui

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Um hotel em demolição

Poema de Carlos Drummond de Andrade

[...]

"Que professor professa numa alcova
irreal, Direito das Coisas, doutrinando
a baratas que atarefadas não o escutam?
Que flauta insiste na sonatina sem piano
em hora de silêncio regulamentar?

[...]

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Casa de Hilton (Olinda-PE): Turismo, Lazer e Hospitalidade

Logo que cheguei a Olinda (sim, por agora estou como cidadã Pernambucana) tive o privilégio de conhecer Hilton, figura sem igual...! Nossos primeiros encontros foram, no mínimo, curiosos. Eu cruzava com uma amiga a Rua do Sol, em Olinda, e ele parado em uma esquina com uma prancheta. Seu esteriótipo, não comum aos meus olhos me chamou atenção. O meu, menos comum ainda aos dele, também o fez parar para observar aquele estranho ser coberto dos pés à cabeça (literalmente) em uma terra tão quente quanto possa ser essas bandas de cá do nordeste brasileiro.

Mas esse foi só "a primeira vista". Tamanha foi a surpresa ao descobrir que aquele rapaz era o dono do albergue  onde estávamos em busca de informações de pouso para os dias que passaríamos por aqui antes de termos residência fixa.

Tendo sido gentilmente convidadas para participarmos, no dia 11 de setembro, do "domingo cultural" promovido por ele mesmo naquele espaço (Albergue casa de Hilton), aceitei o convite sem pestanejar por ter gostado da ideia de um domingo com mostras culturais locais de música, dança, teatro...

Estando responsável pela cadeira de "recreação e lazer" na faculdade na qual estou vinculada, não tive dúvidas que aquele espaço seria, sem dúvidas, uma boa oportunidade para que os alunos pudessem observar empiricamente os temas que estaríamos abordando em sala de aula.


O albergue Casa de Hilton chama atenção de quem passa pela Rua do Sol, em Olinda, pelo colorido de suas paredes e grades, pelo anúncio "rooms for rent" e pelas redes estendidas na varanda convidando para um repouso após longas caminhadas pelas ladeiras do sítio histórico.

Afora o dia-a-dia, uma vez por mês, um domingo é selecionado para mostras culturais de artistas locais, regionais, nacionais, estrangeiros.... O espaço da casa de Hilton é aberto à todos aqueles que possam ter algum dom artístico e que gostariam de um espaço para divulgá-lo.

Para nós, estudantes e estudiosos do Turismo e espaço se abre como palco para compreendermos em algumas horas, na prática, as interfaces entre Turismo, Lazer e Hospitalidade.

Meu maior desafio como docente no curso de Turismo é fomentar entre os alunos que a compreensão de Turismo, enquanto fenômeno, ultrapassa comensurações tempo-espaciais. Estas, são importantes para fins estatísticas, mas apreender o Turismo enquanto fenômeno social abre um horizonte maior de possibilidades de atuação profissional. Sendo assim, tento estimular (nem sempre com sucesso) os alunos a pensarem o turismo como deslocamento dos sujeitos em tempos e espaços diferentes daqueles de seus cotidianos. É um deslocamento coberto de subjetividade, que possibilita afastamentos concretos e simbólicos do cotidiano, implicando portanto, novas práticas e novos comportamentos diante da busca do prazer. (GASTAL e MOESCH, 2007, p. 11). A ideia de Turismo que nos é proposta por Gastal e Moesch não deixa que considerar os fatores tempo e espaço. Estes continuam presentes na compreensão tida, por assim dizer, como pós-moderna. No entanto, essas categorias assumem dimensões e representações que transcendem mensurações, assumem dimensões subjetivas, vinculadas à ruptura com o cotidiano, nos levando a pensar em pôr-nos de frente com o que não nos é comum e, portanto, com aquilo que nos causa estranhamento. Neste processo, o turista, em seus deslocamentos, ao se defrontar com o novo e com o inesperado, vivencia processos de mobilização subjetiva que o levam a parar e a re-olhar, a repensar, a reavaliar, a ressignificar não só a situação, o ambiente, as práticas vivenciadas naquele momento e naquele lugar, mas muitas de suas experiências passadas. (GASTAL e MOESCH, 2007, p. 11). Considerando isto, podemos inferir que o estranhamento transcende mensurações espaço-temporais e estaria vinculado à mobilização afetiva desencadeada (GASTAL e MOESCH, 2007, p. 12).

Outro grande desafio que se impõe é, tal qual o desafio quanto ao conceito de turismo, ajudá-los a compreender o lazer não apenas em oposição ao trabalho, ou ainda, como mera recreação. A pergunta é recorrente: "Por que é necessário perder tanto tempo estudando o conceito de lazer?". Afinal, se a cadeira é de Recreação e lazer, então, o que temos a fazer é aprender "atividades recreacionais" para serem desenvolvidas em nossos grupos de turistas. Dumazedier, ainda em 1973 já nos dizia que seria, pois, inexato e perigoso definir o lazer opondo-o apenas ao trabalho profissional [...]. Em suma, o lazer é definido, nos dias de hoje, sobretudo, por oposição ao conjunto das necessidades e obrigações da vida cotidianaDever-se-á, ainda, salientar que ele só é praticado e compreendido pelas pessoas que o praticam dentro de uma dialética da vida cotidiana, na qual todos os elementos se ligam entre si e reagem uns sobre os outros. O lazer não tem qualquer significado em si mesmo. (DUMAZEDIER, 1973, P. 31-2). Considerando, pois, que o lazer, qualquer que seja a sua função, é inicialmente liberação e prazer, agregar a estas, três funções tidas pelo autor como as mais importantes: a) função de descanso; b) função de divertimento, recreação e entretenimento; c) função de desenvolvimento, pode-se compreender que o lazer é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se, entreter-se ou ainda para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-sedas obrigações profissionais, familiares e sociais. (DUMAZEDIER, 1973, P. 31-2).

O discurso da Hospitalidade no Turismo esteve (e ainda está) relacionada à ideia de "sentir-se em casa", esta, por sua vez, vem na contra-mão daquilo anteriormente apresentado por Gastal e Moesch: o estranhamento. Ainda, sob essa ideia, o trade turístico propõe ações de treinamento de funcionários para a hospitalidade. Em sua dimensão humanística, a Hospitalidade transcende a ideia de troca mercantilista, e passa a ser compreendida sob a teoria da dádiva apresentada por Mauss. Partindo disso, Camargo (2005, p. 717) apóia-se em Alain Caillé, define hospitalidade como toda prestação de serviços ou de bens efetuada sem garantia de retribuição, com o intuito de criar, manter, ou reconstruir o vínculo social. Na mesma direção, Selwin (2004) afirma que a função básica da hospitalidade é mais do que estabelecer um relacionamento; é promover relacionamentos já existentes. os atos relacionados com a hospitalidade, desse modo, consolidam estruturas de relações, afirmando-as simbolicamente ou, transformando-as, no caso do estabelecimento de uma nova estrutura de relações. Nesta última situação, os que dão e/ou recebem hospitalidade não são mais os mesmo, depois do evento, como eram antes (aos olhos de ambos, pelo menos). A hospitalidade transforma: estranhos em conhecidos, inimigos em amigos, amigos em melhores amigos, forasteiros em pessoas íntimas, não-parentes em parentes.





O que pudemos observar no Albergue Casa de Hilton no dia 11 de setembro e que irá se repetir no próximo dia 11, foi a congruência dos três fatores anteriormente descritos. Pudemos ser turistas por uma tarde, ainda que não tenhamos viajado por mais de 24h e que que tenhamos permanecidos em nossas cidades/Estado. Olinda-PE é nossa referência de lugar. Porém, o estranhamento e a fuga das nossas rotinas espaço-temporais são suficientes para caracterizarem nossa prática enquanto turística. Por óbvio, são igualmente turistas os sujeitos ali hospedados, argentinos, espanhóis, cariocas, mas, reafirmo, nós, moradores de Olinda, estávamos em igual posição. A mistura de credos (judeus, muçulmanos, umbandistas, cristãos), de culturas, de falares, caracterizam o lugar como multi-cultural, onde o respeito ao próximo e às diferenças se faz presente. Nosso lazer se fez presente pela aquisição dessa multi-cultura. Pudemos apreciar traços da cultura negra através da música e da dança dos terreiros, bem como da cultura indiana pela mostra de danças e uruguaias e argentinas pela atração poética musical e circense. A Hospitalidade mostra-se não apenas pelo "sentir-se em casa", já que você tem a liberdade de transitar pela casa, mas também pela percepção de que o hóspede torna-se anfitrião numa segunda cena, e essa inversão de papéis prossegue sem fim. Vê-se a hospitalidade, portanto, no ritual básico do vínculo humano, aquele que o perpetua nessa alternância de papéis. (CAMARGO, 2007, p. 07), quando os próprios hóspedes tornam-se anfitriões ao "bem receber" os novos hóspedes.

Retornando ao âmbito conceitual, podemos observar que o conceito de Lazer, conforme apresentado por Dumazadier agrega e converge as atividade de Turismo e Hospitalidade, no sentido aqui apresentado.

A compreensão de Lazer, segundo o sociólogo francês, opõe-se às obrigações e necessidades da vida cotidiana, tal qual a compreensão de Turismo que é apresentada por Gastal e Moesch, que propõe que o turismo seja compreendido como fuga das rotinas espaço temporais. Da mesma forma, a concepção de Lazer desse autor considera a participação social voluntária, assim como Selwin propõe a hospitalidade como estabelecimento e promoção de relações sociais.


sábado, 24 de setembro de 2011

O professor (Jô Soares)

É como eu sempre digo em sala de aula: "É difícil a minha vida...!"

O material escolar mais barato que existe na praça é o professor!
Se É jovem, não tem experiência.
Se É velho, está superado.
Se Não tem automóvel, é um pobre coitado.
Se Tem automóvel, chora de "barriga cheia'.
Se Fala em voz alta, vive gritando.
Se Fala em tom normal, ninguém escuta.
Se Não falta ao colégio, é um 'caxias'.
Se Precisa faltar, é um 'turista'.
Se Conversa com os outros professores, está 'malhando' os alunos.
Se Não conversa, é um desligado.
Se Dá muita matéria, não tem dó do aluno.
Se Dá pouca matéria, não prepara os alunos.
Se Brinca com a turma, é metido a engraçado.
Se Não brinca com a turma, é um chato.
Se Chama a atenção, é um grosso.
Se Não chama a atenção, não sabe se impor.
Se A prova é longa, não dá tempo.
Se A prova é curta, tira as chances do aluno.
Se Escreve muito, não explica.
Se Explica muito, o caderno não tem nada.
Se Fala corretamente, ninguém entende.
Se Fala a 'língua' do aluno, não tem vocabulário.
Se Exige, é rude.
Se Elogia, é debochado.
Se O aluno é reprovado, é perseguição.
Se O aluno é aprovado, deu 'mole'.

É, o professor está sempre errado, mas, se conseguiu ler até aqui,
agradeça a ele!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Anptur 2011: Por um pensamento complexo do turismo que incorpore a lógica dos fluxos aos roteiros turísticos (Introdução)

Se queremos um conhecimento pertinente, precisamos religar, contextualizar, globalizar as nossas informações e os nossos saberes, portanto procurar um pensamento complexo (MORIN, 2001, 497).

A filosofia que norteia o pensamento complexo baseia-se na ordem, desordem e organização. Da desordem apareceriam princípios de ordem, poder-se-ia entender, assim, que o mundo se organiza ao mesmo tempo em que se desintegra. “Há uma espécie de luta entre um princípio de ordem e um princípio de desordem, mas também uma espécie de cooperação entre os dois princípios, cooperação de onde nasce uma idéia ausente da Física clássica que é a organização” (MORIN, 2001, p. 493). Isso não significa que a desordem ocupou o lugar da ordem, mas revela o jogo entre a ordem, a desordem e a organização. É dentro desse princípio de dialógica que esta reflexão se insere, considerando também a dialética, ao passo que as noções de ordem e desordem rejeitam-se ao revelarem-se antagônicas e a princípio contraditórias, mas, ao organizarem-se, revelam-se complementares para a concepção do fenômeno.
O questionamento que a Complexidade coloca é: “como conceber a relação específica daquilo que é ordem, desordem e organização?” (MORIN, 2001). Segundo Panosso (2005) o pensamento sistêmico foi, e ainda continua sendo, o paradigma epistemológico no Turismo mais difundido, “o conceito de sistema leva à idéia de organização, que produz emergências e que, além disso, pelas pressões que impõe, inibe um certo número de propriedades que existem ao nível das partes e que, efetivamente, não podem assim exprimir-se” (MORIN, 2001, p. 494). Dentro do exposto e, ao exemplo de Morin, traz-se aqui a seguinte questão: como se daria a relação entre Roteiro Turístico Moderno, Espaço, Tempo, Tematização, Sujeito, Tecnologia e Roteiro Turístico pós-moderno.
A possível resposta a esse questionamento é buscada em Morin (2008). Para chegar a essa resposta, porém, este artigo abordará a compreensão dos fatores que teriam levado à superação das reduções científicas, principalmente pelo fato de em nossas publicações anteriores ter-se enfatizado a negligência acadêmica ao relegar a compreensão de Roteiro Turístico ao entendimento de senso comum. A necessidade de (re) pensar esses fatores de redução científica está exatamente na justificativa de ter classificado as concepções de Roteiro Turístico como reducionistas.
A redução científica no caso dos Roteiros Turísticos pode ser observada na restrição de Roteiro Turístico à contingência de cronograma de viagens. Sua superação far-se-ia com a idéia de superação da desordem, o que, segundo Morin (2001), tem sido fundamento nos estudos de Física Quântica, que apontaram para a necessidade de tratar a desordem e de negociar com as incertezas, anulando o pressuposto de certeza absoluta atribuída à ciência. Seguindo esse raciocínio, Morin (2001, p. 495) afirma que “os dados são, pois, certos em condições espaço-temporais limitados. Porém as teorias não são certas. As teorias científicas podem sempre ser refutadas pelo aparecimento de novos dados [emergências] ou de novas maneiras de os considerar”.
Além disso, aqui também será abordada, de forma ensaísta, a necessidade de trazer a abordagem dos fluxos para os debates de turismo e, principalmente, para uma compreensão contemporânea de Roteiro Turismo. Para esta, acrescentamos às categorias tradicionais[1] (Tempo, Espaço e Tematização) duas outras categorias constitutivas do conceito no momento contemporâneo: Sujeito e Tecnologia.
Para este artigo, consideramos que existe uma emergência latente a uma compressão de Roteiro Turístico que acompanhe as demandas de sujeitos cujas sensibilidades navegam no século XXI. A idéia de emergência aqui é apoiada em Morin (2001), segundo ele o todo tem um determinado número de qualidades e de propriedades que não aparecem nas partes quando estão separadas. Disso surgeria a noção de emergência. Emergência de qualidades e propriedades constituitivas da organização de um todo (MORIN, 2001).
Isso posto, dentro da presente proposta, têm-se como emergência as novas sensibilidades de Sujeitos, alteradas frente ao paradigma das Tecnologias da Informação, gerando percepções de Tempo[2] e de Espaço[3] diferentes das tradicionais e das modernas. Observando o Roteiro Turístico como cronograma de viagens, portanto, como organizador de atrativos no Tempo e no Espaço, considerando também a emergência de novas sensibilidades relacionadas a tais dimensões, desordena-se a estrutura do pensamento de Roteiro Turístico sob a perspectiva cronogramática.


[1] Para mais detalhes sobre nossa postura em relação às categorias tradicionais e contemporâneas de Roteiro Turístico consultar CISNE, Rebecca; GASTAL, Susana. A produção acadêmica sobre Roteiro Turístico: um debate pela superação. In: Seminário da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo, 6, 2009, São Paulo. Anais. São Paulo: Aleph, 2009.

[2] No pré-turismo, vivia-se um tempo marcado pelas estações do ano, cada estação tinha uma gama de significado para o Homem Nômade. Tempo de plantar, tempo de colher, tempo de sair em retirada para terras mais seguras, menos frias, que prouvesse o alimento. O período do Turismo Industrial impõe uma nova lógica temporal. O tempo passa a tomar uma dimensão cronológica e seus efeitos no Turismo passa a ser visto na sua relação direta à tecnologia dos meios de transporte com o espaço a ser percorrido. A percepção cronológica do tempo fez com que, nesse período de Turismo Industrial, tivesse sua mensuração relacionada à velocidade de transposição do espaço, da mesma forma em que a eficiência dos transportes era mensurada pela sua capacidade de transcorrer maiores distâncias em menos tempo (CISNE, 2010).

[3] No Pré-Turismo o homem percorria o espaço a seu próprio tempo e sem mediações externas, apesar de há haver a iminência de uma tecnologia, ainda rudimentar aos parâmetros atuais, mas que dava ao indivíduo nômade a possibilidade de percepção do espaço percorrido. Com o Turismo Industrial, com o advento das técnicas que impulsionaram o desenvolvimento dos meios de transporte, o homem deixa de perceber o percurso. Emerge a idéia de que percorrer um espaço seria algo sofrido. A velocidade dos transportes surge como resposta a esse sofrimento. Procura-se eliminar, apagar a sensação de se estar percorrendo um espaço. O espaço, nesse período, é simplesmente vencido pelo viajante. Já no Pós-Turismo, a definição de longe e perto é totalmente relativa e presa a percepção, ainda que continue relacionada à velocidade dos meios de transporte, mas também dos meios de comunicação e das tecnologias da informação. O espaço, hoje, deixa de ser mensurado por escalas espaciais e passa a ser mensurados também pelo tempo. Além disso, no momento contemporâneo abre-se espaço também para se falar em espaço virtual (CISNE, 2010)

sábado, 23 de julho de 2011

Intercom 2011: Turismo e seus imaginários: O roteiro turístico tematizado (Introdução)


As tecnologias contemporâneas de informação disponibilizam mídias que encaminham uma nova relação entre fonte-receptor e, como tal, afetam diferentes processos sociais. Um desses processos, bastante alterados, é o que envolve o turismo e o viajar, aí incluído o roteiro turístico. O criar, utilizar ou mesmo comercializar roteiros turísticos atinge novas dimensões, implicando, também, rediscuti-lo do ponto de vista conceitual, filosófico e prático, a partir dos novos contextos socioculturais contemporâneos. Em textos anteriores, temos enfatizado a negligência acadêmica ao relegar a compreensão do roteiro turístico ao entendimento de senso comum, entre outros, no que se refere à tematização. Dando desdobramento à discussão, no presente artigo, questiona-se a concepção das tematizações em termos de componentes, pressupostos e imaginários correlatos aos roteiros turísticos, ancorando a discussão à teoria de Maffesoli (2001) para imaginários e, a partir, disso às tecnologias do imaginário conforme Silva (2003), tendo como cenário a posmodernidade. 

Construído sob bases reflexivas, este artigo tem por objetivo, em um viés ensaístico, incitar discussões sobre o tema e suas questões correlatas. Como metodologia, utiliza-se a teoria do texto, conforme Barthes (1987) e Eco (1999). Para o primeiro, o texto é um campo metodológico aberto inclusive à contradição; Eco (1999, p.81), por sua vez, o considera “um sistema de relações internas que atualiza certas ligações e narcotiza outras”, fazendo emergir o sentido. Busca-se, portanto, a construção de sentido da questão tematização-imaginário e sua relação dialética com a roteirização turística.

Enquanto cenário posmoderno, reporta-se ao proposto por (BOYER, 2003, p. 19), para quem o turismo foi inventado ao longo da Modernidade: iniciaria nas viagens humanistas pela Itália da Roma Clássica, no século XVI; passaria pelo romantismo e sua exaltação à natureza e ao bucólico, em especial no século XVIII; pela invenção do termo turista pelos ingleses, por volta de 1800-1815;  agregando, no século XX, uma íntima relação com a indústria cultural, dos singelos cartões postais à sofisticação tecnológica dos sites na Internet. Este turismo inventado também significará um treinamento de olhar: ele ensinará a olhar o mar, a montanha e outras paisagens (BOYER 2003), mas também imporia outra vivência do corpo, do tempo livre, das relações socais, e, mesmo que já não se fale em grand tour, manter-se-ia a vivência da viagem como um ritual de crescimento, maturidade e transição (WHITE e WHITE, 2004). E se o turismo é inventado, ele também pode ser constantemente reinventado, como seria o caso de produtos turísticos como Las Vegas e os parques temáticos, além de outros espaços turistificados pela posmodernidade (DOUGLASS, 2004), nos quais a tecnologia se faz em presente, em muitos casos – a Disney seria um dos exemplos – no âmbito da indústria cultural[1]. A considerar, ainda, as novas forma de ser e estar na viagem, aí incluídas as formas de roteirizar.

Para o presente artigo, iniciou-se utilizando a expressão roteiro temático, comum quando se “dá um Google” com o termo. Do ponto de vista conceitual, consagrado na literatura especializada, a expressão roteiro turístico temático está em Bahl (2004), para quem haveria uma “gama de criação de roteiros e programações turísticas, baseando-se na criatividade para a proposição de novos produtos” (p. 52). Tem-se, então, a criatividade como primeiro ponto;  a proposição de novos produtos, como objetivo; e a comercialização como fim. O autor acrescenta, ainda, que “roteiros que possibilitem uma exposição temática ampla e baseada em conteúdos culturais-naturais despertam o interesse das pessoas e preenchem suas necessidades de evasão e deslocamento, motivando-as a viajar” (idem, ibidem)

Com vistas a isso, Bahl propõe que sejam incluídos nos roteiros aspectos históricos, geográficos, sociais, urbanísticos, culturais, religiosos, folclóricos, etc. Surge, então, o questionamento: seria isso, de fato, uma tematização, ou apenas elementos locais inseridos no contexto do Roteiro? Onde estaria, se é que os há, divisores de águas entre o que é tematização para roteiros e a mera contextualização de peculiaridades locais dos mesmos? A motivação, como linha de pesquisa situada na Psicologia apresenta-se ampla demais para ser analisada aqui, mas se poderia dizer que a tematização, seja lá como venha a ser entendida, seria fator motivacional e geraria desejo de viagem.

Conforme o exposto, a dimensão temática dos roteiros turísticos é abordada principalmente pelo viés econômico, como agregado de valor para maior atratividade à compra (BAHL, 2004a). Ideia reforçada pelo Ministério do Turismo (2006, p. 23), ao afirmar que “tematizar é importante para fins de planejamento e organização de um produto de acordo com a identidade que se quer dar ao atrativo, ao lugar ou região[grifo nosso]. Exemplo dessa posição seriam os roteiro ofertados, por exemplo, em Caxias do Sul/RS[2], em “uma região turística cuja produção cultural é plural e diversificada pode[endo] criar múltiplos roteiros com temas gerais ou específicos (MTur 2006, p. 23). Percebe-se que a tematização está relacionada ao imaginário do local, associado à italianidade, tendo a marca-lo a presença do cultivo da videira e a produção do vinho. Inventam-se e se reinventam imaginários, apropriados para a criação de temas para o Turismo. Dessa forma, a indicar que tematização e imaginário são conceitos que caminham em sintonia. Analisa-se a seguir, o primeiro para, a seguir, aprofundar o segundo.


[1] Conceito cunhado por Theodor Adorno e Max Horkheimer (1947) para designar as indústrias da diversão e difusão de bens simbólico-culturais, em geral, veiculados por radio, televisão, jornais, revistas, cinema etc. E esse macro setor que assegura a produção, a programação e a distribuição dos produtos e serviços que respondem as necessidades de consumo cultural, também criando novas demandas” (BRITTOS E MIGUEL, 2010)

[2] La Città; Caminhos da Colônia: A gastronomia Italiana; Estrada do Imigrante; Ana Rech: Um encanto de vila; Criúva: Eco-Aventura Gaúcha; e, Vale-Trentino: a História do Vinho.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Divagações sobre minha postura pedagógica


Escrevi este texto há um mÊs e confesso que já tinha desistido de publicá-lo, mas voltei atrás... Confesso ainda que forcei a barra para finalizá-lo com o que tinha, pois a versão "orinial" traria muito mais....
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Uma coisa meio “O mundo de Sofia”...

“O que sou e quem sou?” “Pra quê e por que estou ocupando este espaço?”

O fim de semana passado foi enlouquecedor em questão de trabalho. Mas o retrasado foi ainda pior porque me pus a questionar várias coisas em relação a minha postura pedagógica.

1 – Qual o meu papel enquanto professor?

2 – Enquanto professor, o que devo fazer se meus alunos, já em nível técnico/superior, têm claros problemas de leitura e compreensão de texto e, consequentemente, tem problemas para escrever?

3 – O que devo fazer se meus alunos não têm poder algum de abstração e ainda: quando os meus alunos parecem não ter razão de estar ali ou desconhecerem a real responsabilidade que eles estão assumindo.

Confesso que esses desafios se impõem de forma tão dramática que questionar sobre a minha prática pedagógica se faz muito mais do que necessário!

O meu problema é o seguinte: Eu acredito! E estou pagando um preço muito alto por acreditar!
Eu acredito não que posso salvar o mundo das mazelas que nele se encontram, mas acredito SIM que posso ser agente de mudança na vida de um aluno, fazendo-o perceber que pequenas atitudes podem gerar fortes impactos em nossas vidas pessoais e profissionais.

Se o meio é a mensagem me questiono: quem mensagem estaria eu passando aos meus alunos se simplesmente chegasse à sala de aula falasse, falasse, falasse e fosse embora sem sequer ouvi-los ou, como mesmo tendo espaço para diálogo eles permanecem calados, como seria se eu fosse embora, dando-os as costas e simplesmente ignorando as dificuldades latentes que eles me apresentam? Não nego que isso é muito mais cômodo, afinal, ter atingido ou não o objetivo de aprendizagem não é o que está em questão quando vou receber meu salário. Com os alunos aprendendo ou não, tendo consumido ou não as minhas raras horas de descanso planejando aula e corrigindo MILHÕES de exercícios (os quais gasto muito mais tempo planejando do que os alunos resolvendo), meu salário será o mesmo no fim do mês.
Porém, a minha preocupação está mais além:
No meu entendimento ensinar está além de dar aulas e cumprir carga horária, é necessário proporcionar meios para uma maturação e desenvolvimento pessoal e profissional.
É fato que os alunos têm problemas de educação básica, não os culpo, uma parcela dessa culpa está também com a escola (que facilita demais), com a família (que deixou de se envolver em nome daquilo que chama “Liberdade” e “privacidade”) e com (alguns) professores (que se acomodam). Note bem, não tiro a carga de responsabilidade dos alunos, mas divido a responsabilidade com a escola, com os professores (como conseqüência da primeira) e com a família. Se quisermos melhorar, é necessário um esforço conjunto!

Tenho alunos que são analfabetos funcionais. Eles sabem juntar “B” com “O” para formar “Bo” e logo em seguida “L” com “A”, sabem que tudo isso junto forma “Bola”, mas daí a exigir que façam um gol já é outro departamento...
Tá... Isso é um problema de educação básica e eu atuo com estudantes já em nível superior e técnico. Então, isso não é meu problema. O problema é que eles são burros, desinteressados e não então nem aí. E, como professora de ensino superior e técnico, pouco me importa se eles têm deficiência de leitura e escrita porque eles já deveriam chegar aqui sabendo isso. O meu papel aqui é somente ensiná-los a técnica e a teoria e a deficiência que ele carrega de educação básica agora é problema só dele. Afinal, quem mandou ser burro?!

Só de escrever isso me dá uma ânsia inexplicável!

Desculpas, mas eu não penso assim. Acredito que o problema é meu sim! E tenho consciência que não posso e vou mudar o mundo. Tenho consciência que 1 ano é pouco para mudarmos a realidade de um problema educacional crônico, mas também seguir culpando a educação básica e não fazermos nada é entrar em um ciclo vicioso sem fim. Afinal, quem vai formar os formadores se não mudarmos nossa atitude no pensar e no agir em relação à educação?! É necessário refletir sobre nossas ações e nós mesmos sermos agentes da nossa própria mudança para que possamos, a longo (muito longo) prazo mudar essa realidade.
É comum e, não raro, me pegar pensando no meu agir pedagógico.
E, sinceramente, pra mim, discutir sobre o problema não vai levar a lugar algum, precisamos discutir soluções para o problema – isso se, e somente se, estivermos de fato envolvidos e engajados na crença de que JUNTOS podemos fazer alguma – por menor que seja – diferença.
Então... Vamos por parte:

1 – Eles são burros, desinteressados e não estão nem aí. Será mesmo? Vamos voltar lá para aquela história de que o meio é a mensagem: eles são burros ou eu, no meu meio – sala de aula – no que tenho contribuído para mudar esse cenário?
Sinceramente, penso que ignorar o problema não o resolve.

2 – Se meus alunos estão – e não apenas parecem – desinteressados onde está minha função enquanto educadora? Se ‘saber’ está muito próximo de ‘sabor’ cabe a mim despertá-los para saborear esse saber, não?

Tenho certeza que de Piaget a Morin, passando por Paulo Freire, todos os “filósofos da educação” se contorcem ou ouvir o que sou abrigada a ouvir...

A questão é que como educadora eu não desistir de querer ensinar meus alunos... Ainda que eu não mude o mundo, mas que consiga ser agente de uma mudança mínima de percepção de mundo que os façam refletir já é grande coisa...

Desculpa, diretora, mas se é para formar profissionais alienados e cada vez menos pensantes, eu pulo fora!