quinta-feira, 10 de março de 2011

Buscando territorialidades: Lugares, não-lugares e entre-lugares – a dialógica após três anos

De maneira simplificada, as ideias gerais sobre lugar e não-lugar, os consideram da seguinte forma: o Lugar seria entendido como a porção do espaço que tem sentido para a vida, que é vivido, reconhecido e constituído por identidade. Dentro desse entendimento, cada Lugar, mesmo globalizado, deve ser único para dar sentido à existência do Sujeito. Já o Não-Lugar, a primeira vista seria a simples negação do Lugar. Não raro, os teóricos que discutem o assunto, tendem a olhar o não-lugar desqualificando-o, sob a ótica de espaços vazios de história e de identidade.

Como paraense, amante da Amazônia, das belezas do Pará e da rica cultura do estado, criei territorialidades na minha cidade, Belém, que iam desde o banho de “maré” todos os fins de semana, na praia do Paraíso, em Mosquiero, à frequente participação nos famosos arrastões do Pavulagem, nos domingos de Junho, Sábado de Círio Fluvial e Carnaval. Isso sem falar na paixão a assiduidade ao Parque Ambiental de Belém, que abriga os mananciais de água que abastecem Belém (lago Bolonha e Água Preta), ao Memorial dos Povos em dias de celebrações culturais, ao Teatro da Paz (em especial nos Festivais de Ópera e de Dança), ao Museu Paraense Emílio Goeldi, à “portinha”, na Cidade Velha, enfim, a lista é longa... Frente a isso, não havia dúvidas de que Belém É o meu LUGAR.

A mudança para Caxias do Sul-RS, em função do Mestrado, aconteceu quase que sem pensar. Fiz a prova sem grandes expectativas e fui aprovada. Tive apenas 15 dias para voltar a Belém, organizar as coisas, comunicar aos amigos e parentes (já que eles não sabiam que eu estava em Caxias para tentar a prova de mestrado) e retornar à Caxias. Do Oiapoque ao Chuí em 15 dias!

O primeiro ano em Caxias foi enlouquecedor! Estava eu em um espaço completamente vazio de história e identidade, pelo menos para mim... Mas, com o passar do tempo fui criando territoriadades. A primeira foi no Shopping pelas famosas shopping-terapias tão necessárias em tempos de crise e, claro, pelo cinema. Depois com o centro da cidade, os parques, os restaurantes, o lago da universidade, enfim.... Caxias tinha deixado de ser um Não-Lugar, um espaço de conexão. No entanto, Caxias jamais chegaria a ser o meu LUGAR. E, assim, estava eu construindo territorialidades em um espaço que antes era a negação de lugar. Este espaço tornara-se, então, um Entre-Lugar para mim.

Hoje, de volta a Belém, depois de três anos morando em Caxias, não foi só o sotaque que sofreu alterações. A forma de perceber minha cidade, de dialogar com ela e com seus espaços, de percorrer suas ruas e ler seus significados, também mudou. A mudança é sempre perturbadora! Pelo menos pra mim, sempre foi. Não é mais aquele medo do novo que existia na Rebecca antes de Caxias, mas simplesmente, a perturbação no estranhamento de um espaço que antes fora tão MEU. E, dessa forma, uma Belém, antes o meu lugar, passa a ser um angustiante Entre-Lugar, o qual preciso decifrar, reler, recodificar. A cidade permanece a mesma. Mas a Rebecca, sujeita às mudanças impostas pela expansão de ser do mestrado e das experiências vividas no território Gaúcho, não é mais a mesma...

E, como é a pergunta que move o Sujeito, me questiono: Será que um dia, embora eu resgate minhas territorialidades em Belém, eu fá-la-ei ser novamente o MEU LUGAR?

Por fim, depois desse questionamento me pergunto se soube empregar bem o título dessa postagem. Estaria eu buscando por territorialidades ou tentando encontrar o meu lugar no mundo?
Agora o medo ressurge, mas não com o temor de não encontrar a resposta, mas sim de perceber que não mais encontrarei um espaço que poderei chamar de meu lugar.