sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Casa de Hilton (Olinda-PE): Turismo, Lazer e Hospitalidade

Logo que cheguei a Olinda (sim, por agora estou como cidadã Pernambucana) tive o privilégio de conhecer Hilton, figura sem igual...! Nossos primeiros encontros foram, no mínimo, curiosos. Eu cruzava com uma amiga a Rua do Sol, em Olinda, e ele parado em uma esquina com uma prancheta. Seu esteriótipo, não comum aos meus olhos me chamou atenção. O meu, menos comum ainda aos dele, também o fez parar para observar aquele estranho ser coberto dos pés à cabeça (literalmente) em uma terra tão quente quanto possa ser essas bandas de cá do nordeste brasileiro.

Mas esse foi só "a primeira vista". Tamanha foi a surpresa ao descobrir que aquele rapaz era o dono do albergue  onde estávamos em busca de informações de pouso para os dias que passaríamos por aqui antes de termos residência fixa.

Tendo sido gentilmente convidadas para participarmos, no dia 11 de setembro, do "domingo cultural" promovido por ele mesmo naquele espaço (Albergue casa de Hilton), aceitei o convite sem pestanejar por ter gostado da ideia de um domingo com mostras culturais locais de música, dança, teatro...

Estando responsável pela cadeira de "recreação e lazer" na faculdade na qual estou vinculada, não tive dúvidas que aquele espaço seria, sem dúvidas, uma boa oportunidade para que os alunos pudessem observar empiricamente os temas que estaríamos abordando em sala de aula.


O albergue Casa de Hilton chama atenção de quem passa pela Rua do Sol, em Olinda, pelo colorido de suas paredes e grades, pelo anúncio "rooms for rent" e pelas redes estendidas na varanda convidando para um repouso após longas caminhadas pelas ladeiras do sítio histórico.

Afora o dia-a-dia, uma vez por mês, um domingo é selecionado para mostras culturais de artistas locais, regionais, nacionais, estrangeiros.... O espaço da casa de Hilton é aberto à todos aqueles que possam ter algum dom artístico e que gostariam de um espaço para divulgá-lo.

Para nós, estudantes e estudiosos do Turismo e espaço se abre como palco para compreendermos em algumas horas, na prática, as interfaces entre Turismo, Lazer e Hospitalidade.

Meu maior desafio como docente no curso de Turismo é fomentar entre os alunos que a compreensão de Turismo, enquanto fenômeno, ultrapassa comensurações tempo-espaciais. Estas, são importantes para fins estatísticas, mas apreender o Turismo enquanto fenômeno social abre um horizonte maior de possibilidades de atuação profissional. Sendo assim, tento estimular (nem sempre com sucesso) os alunos a pensarem o turismo como deslocamento dos sujeitos em tempos e espaços diferentes daqueles de seus cotidianos. É um deslocamento coberto de subjetividade, que possibilita afastamentos concretos e simbólicos do cotidiano, implicando portanto, novas práticas e novos comportamentos diante da busca do prazer. (GASTAL e MOESCH, 2007, p. 11). A ideia de Turismo que nos é proposta por Gastal e Moesch não deixa que considerar os fatores tempo e espaço. Estes continuam presentes na compreensão tida, por assim dizer, como pós-moderna. No entanto, essas categorias assumem dimensões e representações que transcendem mensurações, assumem dimensões subjetivas, vinculadas à ruptura com o cotidiano, nos levando a pensar em pôr-nos de frente com o que não nos é comum e, portanto, com aquilo que nos causa estranhamento. Neste processo, o turista, em seus deslocamentos, ao se defrontar com o novo e com o inesperado, vivencia processos de mobilização subjetiva que o levam a parar e a re-olhar, a repensar, a reavaliar, a ressignificar não só a situação, o ambiente, as práticas vivenciadas naquele momento e naquele lugar, mas muitas de suas experiências passadas. (GASTAL e MOESCH, 2007, p. 11). Considerando isto, podemos inferir que o estranhamento transcende mensurações espaço-temporais e estaria vinculado à mobilização afetiva desencadeada (GASTAL e MOESCH, 2007, p. 12).

Outro grande desafio que se impõe é, tal qual o desafio quanto ao conceito de turismo, ajudá-los a compreender o lazer não apenas em oposição ao trabalho, ou ainda, como mera recreação. A pergunta é recorrente: "Por que é necessário perder tanto tempo estudando o conceito de lazer?". Afinal, se a cadeira é de Recreação e lazer, então, o que temos a fazer é aprender "atividades recreacionais" para serem desenvolvidas em nossos grupos de turistas. Dumazedier, ainda em 1973 já nos dizia que seria, pois, inexato e perigoso definir o lazer opondo-o apenas ao trabalho profissional [...]. Em suma, o lazer é definido, nos dias de hoje, sobretudo, por oposição ao conjunto das necessidades e obrigações da vida cotidianaDever-se-á, ainda, salientar que ele só é praticado e compreendido pelas pessoas que o praticam dentro de uma dialética da vida cotidiana, na qual todos os elementos se ligam entre si e reagem uns sobre os outros. O lazer não tem qualquer significado em si mesmo. (DUMAZEDIER, 1973, P. 31-2). Considerando, pois, que o lazer, qualquer que seja a sua função, é inicialmente liberação e prazer, agregar a estas, três funções tidas pelo autor como as mais importantes: a) função de descanso; b) função de divertimento, recreação e entretenimento; c) função de desenvolvimento, pode-se compreender que o lazer é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se, entreter-se ou ainda para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-sedas obrigações profissionais, familiares e sociais. (DUMAZEDIER, 1973, P. 31-2).

O discurso da Hospitalidade no Turismo esteve (e ainda está) relacionada à ideia de "sentir-se em casa", esta, por sua vez, vem na contra-mão daquilo anteriormente apresentado por Gastal e Moesch: o estranhamento. Ainda, sob essa ideia, o trade turístico propõe ações de treinamento de funcionários para a hospitalidade. Em sua dimensão humanística, a Hospitalidade transcende a ideia de troca mercantilista, e passa a ser compreendida sob a teoria da dádiva apresentada por Mauss. Partindo disso, Camargo (2005, p. 717) apóia-se em Alain Caillé, define hospitalidade como toda prestação de serviços ou de bens efetuada sem garantia de retribuição, com o intuito de criar, manter, ou reconstruir o vínculo social. Na mesma direção, Selwin (2004) afirma que a função básica da hospitalidade é mais do que estabelecer um relacionamento; é promover relacionamentos já existentes. os atos relacionados com a hospitalidade, desse modo, consolidam estruturas de relações, afirmando-as simbolicamente ou, transformando-as, no caso do estabelecimento de uma nova estrutura de relações. Nesta última situação, os que dão e/ou recebem hospitalidade não são mais os mesmo, depois do evento, como eram antes (aos olhos de ambos, pelo menos). A hospitalidade transforma: estranhos em conhecidos, inimigos em amigos, amigos em melhores amigos, forasteiros em pessoas íntimas, não-parentes em parentes.





O que pudemos observar no Albergue Casa de Hilton no dia 11 de setembro e que irá se repetir no próximo dia 11, foi a congruência dos três fatores anteriormente descritos. Pudemos ser turistas por uma tarde, ainda que não tenhamos viajado por mais de 24h e que que tenhamos permanecidos em nossas cidades/Estado. Olinda-PE é nossa referência de lugar. Porém, o estranhamento e a fuga das nossas rotinas espaço-temporais são suficientes para caracterizarem nossa prática enquanto turística. Por óbvio, são igualmente turistas os sujeitos ali hospedados, argentinos, espanhóis, cariocas, mas, reafirmo, nós, moradores de Olinda, estávamos em igual posição. A mistura de credos (judeus, muçulmanos, umbandistas, cristãos), de culturas, de falares, caracterizam o lugar como multi-cultural, onde o respeito ao próximo e às diferenças se faz presente. Nosso lazer se fez presente pela aquisição dessa multi-cultura. Pudemos apreciar traços da cultura negra através da música e da dança dos terreiros, bem como da cultura indiana pela mostra de danças e uruguaias e argentinas pela atração poética musical e circense. A Hospitalidade mostra-se não apenas pelo "sentir-se em casa", já que você tem a liberdade de transitar pela casa, mas também pela percepção de que o hóspede torna-se anfitrião numa segunda cena, e essa inversão de papéis prossegue sem fim. Vê-se a hospitalidade, portanto, no ritual básico do vínculo humano, aquele que o perpetua nessa alternância de papéis. (CAMARGO, 2007, p. 07), quando os próprios hóspedes tornam-se anfitriões ao "bem receber" os novos hóspedes.

Retornando ao âmbito conceitual, podemos observar que o conceito de Lazer, conforme apresentado por Dumazadier agrega e converge as atividade de Turismo e Hospitalidade, no sentido aqui apresentado.

A compreensão de Lazer, segundo o sociólogo francês, opõe-se às obrigações e necessidades da vida cotidiana, tal qual a compreensão de Turismo que é apresentada por Gastal e Moesch, que propõe que o turismo seja compreendido como fuga das rotinas espaço temporais. Da mesma forma, a concepção de Lazer desse autor considera a participação social voluntária, assim como Selwin propõe a hospitalidade como estabelecimento e promoção de relações sociais.