Roteiro Turístico

Não é praxi, mas acredito ser importante esclarecer o objetivo desta página:


A intenção é trazer as reflexões que permearam a minha construção na busca pelo conceito de Roteiro Turístico. É importante ressaltar, porém, que o texto que segue (minhas considerações provisórias - na íntegra - para a finalização da dissertação) traz a minha leitura para o entendimento de Roteiro Turístico.


Portanto.....


Partindo da dimensão reflexiva que este estudo tomou, tinha-se, a princípio, a intenção de trazer algumas respostas e um saber produzido. Porém, na medida em que as leituras, os debates e até mesmo a própria escrita avançava, percebeu-se que não se traria resposta ou alguma proposta de conceituação e que isso não passara de pretensão. O resultado final mostrou que ainda há muito que se percorrer neste caminho, muito a ser refletido, debatido, aprimorado e acrescentado. Se coubesse aqui a possibilidade de reformular o objetivo geral desta pesquisa, dir-se-ia que “o presente estudo tem como principal objetivo trazer as meditações feitas pela pesquisadora durante seu percurso reflexivo, sem abstrair suas inquietações, dúvidas e muitos questionamentos”.
O saber, até então produzido, acerca dos roteiros turísticos, permitiu perceber a presença das categorias Tempo, Espaço e Tematização consagradas no roteiro turístico Tradicional. O prosseguimento da pesquisa permitiu adicionar as categorias Tecnologia e Sujeito, no que se convencionou chamar, no estudo, de roteiro turístico pós-moderno.
O trajeto percorrido no percurso reflexivo pode ser representado, graficamente, na figura a seguir:





Figura 05: Esquematização das categorias constituitivas do Roteiro Turístico
Fonte: Cisne, 2010

O viés multidisciplinar tomado pela pesquisa, além da opção de trabalhar com categorias, permitiu que se transitasse por teóricos da Geografia, Engenharia e Ciências Sociais para estudá-las, ressignificando-as no contexto social e construindo-as no contexto do Turismo. Entende-se que a complexidade não permite, na sua essência, o trabalho com categorias de análise, mas o aporte dado pela dialética suporta a proposta, necessária quando se precisa trabalhar com outros conceitos, definindo-os e redimensionando-os para que, neste estudo, pudesse construir um pensamento complexo acerca do que se compreende aqui como Roteiro Turístico Pós-Moderno.

A partir dessa construção surgiu a inquietação epistêmica acerca do Turismo, que tem privilegiado, de forma geral, salvo exceções, as categorias Tempo e Espaço da mesma forma que as reflexões acerca do roteiro turístico, trabalhando ainda a tematização, embora que de maneira periférica. Agregada à dimensão conceitual, emergiu a inquietação quanto ao uso das (Geo)Tecnologias no Turismo, questionou-se sobre a prática dos roteiros turístico, já não mais sob a ótica pragmática, mas, buscando considerar o mundo Pós-Moderno e as novas sensibilidades que daí emergem. Transpondo-se essas questões ao Método, tem-se, graficamente, a seguinte esquematização:

Figura 06: Estrutura do estudo (equalização teoria e método)
Fonte: Cisne, 2010

Considerado isso, sincronizando método e teoria, retornou-se às bases conceituais da literatura existente, outrora levantada, pensando sob uma perspectiva complexa para analisar o Roteiro Turístico, perguntando-se o que faz o roteiro ser Roteiro? Se a indicação de caminhos; se a inclusão de programação; ou a inclusão de serviços. A partir disso, percebeu-se que há uma insuficiência conceitual para a delimitação das definições, conforme pode ser observada na figura que segue:
Figura 07: A complexidade no pensar Roteiro Turístico
Fonte: Cisne, 2010

A partir daí, do ponto de vista da análise crítica do Turismo, é necessário que se faça a distinção entre a existência do Roteiro Turístico e o valor do Roteiro Turístico. A proposta, então, é que o tema seja pensado sob as mesmas lógicas das novas abordagens epistemológicas do Turismo, que têm buscado separar a idéia de Turismo como mero produto e a de Turismo como fenômeno. Esse reducionismo na compreensão do Turismo seria conseqüência, como já ilustrado anteriormente, no capítulo quatro, de uma ambição tradicionalmente unitária do pensamento.

Considerando isso, retomam-se os princípios que levariam à reforma do pensamento, apresentado no capítulo um (p. 45). O exercício inclinado ao pensamento complexo permite que o princípio da ordem tenha sido transcendido pelo próprio encaminhamento metodológico desta investigação (Dialética e Complexidade). A opção por trabalhar com categorias de análise poderia trazer ambigüidades em relação à superação pelo princípio de separação. No entanto, a síntese trazida no quinto capítulo, revelando as três esferas do Roteiro Turístico revela o real sentido da frase “O todo é algo além da soma das partes”, revelando que o resultado (aqui encarado não como final mas como preliminar) deste percurso reflexivo apresentou o Roteiro Turístico não pela união das categorias para compor um conceito de Roteiro Turístico, mas uma ligação de “descobertas” que possibilitou vislumbrá-lo de forma diferenciada. Esse reconhecimento de que a proposição de categorias foi insuficiente para conceituar Roteiro Turístico, mostrou-se necessário para compreendê-lo em sua complexidade, permitindo que se transcendesse o princípio de redução, reafirmado pelo surgimento no momento final de outra categoria: movimento. Novamente, o método dialético e a permissão que ele dá à contradição, ao conflito e à dúvida, sempre mostrados durante esta construção, refuta o princípio Dedutivo-indituvo-identitário.

O que se quis trazer aqui foram os questionamentos que surgiram ao longo do processo de construção deste estudo nas múltiplas facetas de um problema e pela ambição de examinar o Roteiro Turístico sob um olhar epistemológico, “as linguagens privilegiadas para descrever os fenômenos correspondentes, as lógicas concorrentes mobilizam óticas e sistemas de representação totalmente irredutíveis uns aos outros” (ARDOINO, 2001, p. 484-5), ilustrando assim que a unidade e a diversidade encontram-se conciliadas no seio de uma unitas multiplex.

O Roteiro Turístico tem uma realidade per se, inerente à sua materialização. Isoladamente, sob o olhar pragmático, ele assume valor de mercado, mas não se pode esquecer que, frente às novas sensibilidades de Sujeitos que navegam pela era da tecnologia da informação, o Roteiro Turístico é dotado também de um valor social, intrínseco a sua existência relacional.

Os atrativos (turísticos ou não) asseguram a continuidade do tempo Turístico e da temporalização do Sujeito, o que é garantido pela sucessão dos eventos, dos fluxos, que, por sua vez, mudam o sentido de Tempo, criando novas temporalidades.

O roteiro turístico pós-moderno tem autonomia em sua existência, por sua essência corpórea, diferentemente do Roteiro Turístico tradicional que não tem autonomia de significação. A linha que marca a transição de paradigma de Roteiro Turístico do tradicional ao pós-moderno é bastante tênue, pois essa mudança de paradigma vem das diversas relações que mantém com os eventos (fluxos). E assim, na terceira esfera do Roteiro, o tempo testemunha a materialidade do Roteiro, sendo, simultaneamente, passado, presente e futuro. O roteiro turístico pós-moderno é ele próprio a expressão atual de experiências e eventos passados e de imaginários no futuro.

O desenvolvimento da pesquisa e a evolução do pensamento aqui proposto de, a partir da proposição de um entendimento de Roteiro Turístico que redimensionasse a compreensão das categorias tradicionais, com uma proposição humanística que incorporasse a lógica dos fluxos, deu margens à distinção entre ser roteiro turístico e valer como roteiro turístico. A valorização do roteiro esteve ligada, dentre outras coisas, à sua funcionalidade, como “cronograma” de viagens. Ao fim dessa jornada intelectual, pode-se chegar à proposição, baseado na distinção feita por Kubler (apud Santos, 2009), de olhar o Roteiro não mais sob seu valor sistemático, ou seja, considerando-o como um objeto dentro do Sistema Turístico, como uma síntese do Lugar; mas compreendê-lo sob seu valor absoluto, ou seja, pelas suas características intrínsecas e atributos que o apresentam como organizador de experiências.

Por analogia à proposta de Kluber, que propõe que se trabalhe com três coordenadas (lugar, idade e sequência) para entender a produção do espaço, indicam-se aqui as três coordenadas que poderiam ajudar do Roteiro Turístico pós-moderno: (não-)Lugar (espaço); Seqüência (tempo); e Experiência (Sujeito), que em consonância, dão margens à organização do fluxo. Primeiro, porque todo Roteiro se materializa no espaço, seja ele fixo (Lugar) ou fluxo (Não-Lugar). O Roteiro Turístico só existe no espaço geográfico, no momento em que ele se instala para ganhar a certidão de empirização.

A segunda, seqüência, é a que aponta com maior rigor à distinção entre o tradicional e o pós-moderno, já que a duração física de um roteiro não pode ser completamente conhecida com anterioridade, pois depende do comportamento dos Sujeitos em tal espaço, o que pode apenas ser imaginado pelo operador. A conexão existente entre os atrativos “merecedores” de serem visitados é dada pelo fluxo, ou seja, pela empirização do tempo.

Os fluxos são produto e resultante do espaço, da interpretação do Sujeito Turístico e de suas manifestações particulares. O mundo em movimento supõe uma permanente redistribuição dos eventos e dos fluxos com a valorização diferencial dos lugares. Há ainda aquela seqüência de imaginário à viagem (planejamento do roteiro), materialização do deslocamento no espaço físico, e a construção do moi. Essa abre margem à terceira coordenada, a experiência, a qual se baseia na idéia de que é o instante que valoriza diferentemente o Roteiro, portanto, depende da compreensão de tempo lento e tempo rápido, apresentados no capítulo quatro, e da subjetividade de cada Sujeito, já que a cada momento, o valor da totalidade é mudado em função das percepções do indivíduo. Ou, seja, nada mais de panorama, somente uma visão, percepções, em que o tempo vem à tona antes de “desaparecer”, passando da cronologia a uma duração de tempo que se expõe instantaneamente.

Essa relação é clara no Roteiro Turístico Pós-Moderno, que dá margens ao imprevisto, pois abre espaço à processos que são negados no roteiro tradicional, cujo foco está em assegurar a incidência do acontecer. O roteiro turístico pós-moderno assume a possível mudança das funções das coisas. Essa migração de valores não é aleatória. Ela revela as determinações pelas quais o roteiro tradicional busca encaixar-se nas formas preexistentes e criadas, podendo somente ser entendido como um modelo espaço-temporal.

A proposição de roteiro turístico sob três esferas: imaginal, no ato do planejamento; concretização, no ato do deslocamento, quando assume sua forma empírica, para a primeira esfera a idéia de desterrotoriazação (GASTAL, 2005) que, em um movimento dialético, é negada, na esfera seguinte, assumindo a postura de Santos (2009) segundo quem, o espaço jamais pode ser suprimido, pois a distância não é sua única dimensão. Pode-se falar em tempo turístico, mas na análise dos roteiros, sob as perspectivas aqui apresentadas, o mais correto seria falar em temporalidades.

As manifestações temporais e espaciais do Turismo são mais evidentes quando se concretizam os três estágios do roteiro turístico. Ou, do ponto de vista prático, quanto mais evidente for a montagem do Roteiro, pelo planejamento da viagem – da motivação à escolha dos destinos; a concretização do Roteiro – a viagem si; e o relato (oral ou escrito) das viagens, mais a complexidade do tempo vem à tona, já que é nesse terceiro estágio do Roteiro que a noção de tempo pelo passado, presente e futuro se encontram e se juntam, agora não mais em uma relação dialética, mas de complementaridade, conforme apontado no capítulo cinco.

Algumas questões ficaram em aberto neste estudo, ou ainda, foram tratadas de forma periférica. Justifica-se: o tema mostrou-se muito mais complexo do que imaginara à princípio, fazendo com o que o tempo de duração do mestrado fosse insuficiente para abordá-las com profundidade, ou ainda, impossibilitando debruçar-se sobre tais questões. Em função disso, não foi possível dedicar-se aos questionamentos que surgiram no momento final do percurso, ficando assim a proposta para continuação dos estudos.

No momento contemporâneo os viajantes têm acesso a uma variedade de tecnologias informacionais sem precedentes na história, que podem ser e comumente são, utilizadas em todas as fases da viagem, que são popularmente conhecidas como travel-tech, ou seja, o uso de tecnologias para facilitar e aprimorar as experiências de viagem, proporcionados não apenas por sites, mas também por aplicativos e dispositivos à disposição do Sujeito. Essas tecnologias podem ser utilizadas também nas três etapas do deslocamento: Pré-viagem, Viagem e Pós-viagem. Essas três etapas são aqui apresentadas como forma de ilação entre o que foi apresentado no capítulo três (Sujeito e Tecnologia) e o que que foi apresentado no capítulo cinco.

A Comunicação Mediada por Computadores, as redes sociais, as comunidade virtuais, unidas no que Castells denomina de espaço de fluxos, propicia a divisão desses três estágios de forma mais clara e acessível ao Sujeito Turístico Contemporâneo, o pós-turista, como denomina Molina (2003). Esse indivíduo possui o material necessário para Roteirizar sua viagem, com acesso a informações, serviços on-line de reservas de passagens, tickets, hotéis, referências de lugares (turísticos ou não, já que pode ter a indicação dos próprios moradores do Lugar sobre os espaços da cidade), cartografia georreferenciada dos lugares a serem visitados, demarcando assim, o primeiro estágio do Roteiro, a “viagem” (em sentido abstrato) em tempo e espaço virtual.

Na Pré-viagem, ou seja, planejamento, ou como se convencinou denominar neste estudo, a Roteirização a priori, há sites como kayak.com, tido como um dos mais completos e acessíveis na busca por opções para comparar preços de passagens aéreas, de hotéis, de aluguéis de carros, de cruzeiros, de férias e até mesmo de pacotes. Há ainda o iPhone App, que possibilita a digitalização de pontos de interesse, tornando dispensáveis as listas em papel que normalmente se perdem. Para começar, os viajantes têm a opção de selecionar a lista de pacotes pré-construídos para uma variedade de viagens comuns ou começar do zero para construir a sua própria. As listas pré-definidas podem ser facilmente deletadas, da mesma forma em que qualquer lista pode ser guardada com referência para a viagem de retorno, como todos os dados sobre a partida. Esse estágio, conforme mencionado no quinto capítulo é marcado pela criação do imaginário sobre uma localidade até o desejo de evasão. dentro desse contexto, destaca-se o site virtourist.com para pesquisa de informações básicas sobre o país de destino, acessar mapas de fácil leitura e até mesmo ver apresentações de slides de alta qualidade das cidades e locais que o Sujeito planeja ver mesmo estando longe. Embora esta forma de “turismo virtual”, conforme as ressalvas já feitas neste estudo, não possibilitam a experiência de estar no Lugar, esse site é uma ferramenta que pode auxiliar os Sujeitos na escolha dos pontos de interesse.

Durante a viagem, as mesmas funcionalidades que fazem do iPhone um excelente gadget para gerir a vida em uma base diária também se aplica a viagens. Construído como um Quadband, GSM smartphone, o iPhone pode se conectar a redes de telefonia celular em todo o globo e mesmo o acesso de dados 3G, quando disponíveis, portanto não há necessidade de se preocupar em perder e-mails, textos, telefonemas ou mensagens Facebook enquanto estiver no percurso. Graças às suas ferramentas de localização de críticas, tais como rastreamento GPS, Google Maps, e uma bússola digital, no caso do 3GS, o iPhone é também uma excelente ferramenta para ajudar os viajantes a descobrir exatamente onde estão e navegar virtualmente em qualquer lugar; funciona também como um instrumento útil e câmera fotográfica de vídeo para documentar a viagem em uma embreagem e graças a uma biblioteca sempre crescente de aplicações, que tem potencial virtualmente ilimitado para fornecer aos turistas com qualquer informação ou entretenimento digital podem necessitar.

Em um segundo momento, a materialização dessa “viagem”, pelo deslocamento, tirando o roteiro do plano da abstração para sua empirização e, finalmente, com os relatos, incitando imaginários, alimenta o campo simbólico, por meio de suas narrativas e fotografias. Essa periodização, por assim dizer, do roteiro em três etapas atribui o sentido de viagem no espaço de fluxos, à viagem pelo espaço de lugares, com retorno ao imaginário.

Na Pós-viagem, ou, na roteirização à Posteriori têm-se os blogs, como espaço para relatos de viagem, assim como o Flickr como compartilhamento de fotos da sua viagem com amigos e familiares envolvidos geralmente transportam cerca de um maço de cópias, pelo menos, dois meses após seu retorno. Agora, na era da comunicação instantânea e fotografia digital, o Flickr é o melhor amigo de um guerreiro da estrada voltando. Além de ser um grande local de backup gratuito para fotos no caso de cópias localizadas são perdidos, fazer upload de imagens para o Flickr permite que os viajantes podem facilmente compartilhar fotos com qualquer um e todos de imediato. Além disso, se você está morto ainda em conjunto carregando fotos físico, também é um ótimo recurso para encomendar impressões ou a criação de livros personalizados e álbuns que podem ser enviadas à sua porta.

O computador e as demais tecnologias assumem o papel essencial para a materialização do roteiro turístico pós-moderno, mas vale resguardar que essas manifestações espaciais e temporais pós-modernas não anulam as demais práticas de pré-turismo ou do turismo industrial. Da mesma forma em que as novas percepções de tempo e espaço não são fruto do tempo homogêneo das tecnologias da informação, mas da experiência vivida por cada Sujeito. Essa discussão, no entanto, não se esgota aqui. É necessário uma análise mais detalhada e precisa, a partir da apreciação dos conteúdos desses tempos abstratos dos relógios.

Retomando o problema central de pesquisa[6] à luz dessas teorizações, emergem reflexões sobre a visão moderna de Tempo e Espaço, compreendidos, até então, como absolutos. Isso permite ressiginificá-los sobre percepção pós-moderna de Tempo e Espaço permeados pela Tecnologia. Pode-se entender Espaço em sua acepção moderna, aqui chamado de espaço absoluto, que fora associado a território; esta não desaparece, mas passa a conviver com outras percepções, como a de espaço virtual. Da mesma forma, o tempo, antes associado à idéia de tempo cíclico e cronológico, também não desaparece, mas passa a conviver com outras sensibilidades, permitindo falar em tempo intemporal ou em realidade virtual.

Quanto ao Sujeito, analisando a história de desenvolvimento do Turismo, percebe-se que, no período tradicional, ele se desloca como sujeito solitário, na modernidade, a partir da organização das viagens em torno do lazer, impõem-se as viagens em grupo, programadas, guiadas e, à priori, sem nenhum tipo de problemas. Desenha-se a roteirização formalizada para o Turismo. E, assim, por meio do Turismo nasce um antagonismo apontado por Jané (2002) entre o estereótipo do viajero mitificado e o turista de rota programada.

Percebido isso, pode-se ancorar essas discussões para o âmbito dos Roteiros. Da mesma forma que Santos (2009, p. 92) afirma que “o espaço geográfico é muito mais do que simples oferta de caminhos, ainda que também seja isso”, pode-se concluir que o Roteiro Turístico é muito mais do que a indicação metódica de caminhos a serem percorridos, ou mera indicação de atrativos merecedores de serem visitados. O Roteiro Turístico pode orientar o fluxo turístico, indicando caminhos e propondo, por meio da subjetividade, emoção e percepção de cada Sujeito que o realiza, atividades a serem vivenciadas ao longo do espaço físico percorrendo seus significados, atribuindo ao espaço, o sentido e o valor de Lugar. Essa idéia está representada na imagem que segue:


Figura 08: Espiral representativa da ressignificação das categorias de análise (Entendendo Roteiro Turístico)
Fonte: Cisne, 2010

A figura busca representar a ressignificação das categorias percebidas no conceito de Roteiro Turístico Tradicional (Tempo, Espaço), bem como a ressignificação das categorias percebidas no conceito de Turismo no momento contemporâneo (Estranhamento, Experiência e Mobilidade). Diferentemente do que foi apontado no capítulo cinco, essas categorias são agora ressignificadas não pela migração da percepção de espaço como absoluto para virtual; de tempo como absoluto para tempo intemporal. Mas as percepções individuais de tempo e espaço se modificam de acordo com o Lugar em que se está e com as experiências ali vivenciadas.

A categoria Movimento só foi percebida na construção do quinto capítulo, quando se retomou a epistemologia do turismo, o que, possivelmente, pode estar relacionada às discussões acerca das categorias Tempo e Espaço inicialmente percebidas na desconstrução do conceito tradicional de Roteiro Turístico, o que revelou limites desta pesquisa. Nesse sentido, o Movimento, igualmente ao Tempo e ao Espaço, mostra-se como categoria tradicional, principalmente por tomar sentido e significado ao estar a elas atrelada. Isso releva uma lacuna na pesquisa, que poderá, posteriormente, ser retomada. Percebe-se, nesse momento que, tradicionalmente, a categoria movimento esteve (e ainda mantêm-se) submetida às condicionantes tempo e espaço, portanto, aos fixos. No momento contemporâneo, essa categoria também passa a conviver com a condição de “significador” submetida à tecnologia para atribuir um novo sentido ao tempo e ao espaço, abrindo caminhos para que se possa pensar os fluxos, dentro do espaço virtual, do tempo intemporal e das novas sensibilidades dos Sujeitos.

Assim, esta pesquisa abre novos questionamentos e novos caminhos a serem percorridos em estudos posteriores. Além das questões apontadas no decorrer deste texto, ao fim desta etapa indagou-se sobre a formação profissional e as novas demandas dos Sujeitos, quais seriam as habilidades e competências que precisariam ser desenvolvidas pelo agente para lidar com o Sujeito contemporâneo e suas novas sensibilidades? Indaga-se também sobre a categoria deslocamento e suas dimensões e perspectivas dentro da epistemologia do Turismo e da compreensão do Roteiro Turístico. Abrem-se caminhos para estudar com mais propriedade as nuances do Sujeito Turístico e do Sujeito Atávico, conforme lançado no capítulo cinco. E, da mesma forma, a questão da experiência e sua relação com o fluxo para a composição do que seria o Roteiro Turístico também necessita ser estudado com mais profundidade.

Nesse sentido, pode-se concluir que ainda há muito a ser percorrido para alcançar a complexidade do entendimento do Roteiro Turístico, partindo das questões aqui levantadas e, assumindo a dúvida e as indagações que irão surgir na próxima etapa.